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Planejamento

Como fazer orçamento base zero na prática

08 de julho de 20265 min de leitura
Por Paulo Raizi
Como fazer orçamento base zero na prática

O problema que ninguém vê até ser tarde demais

Você renova o contrato daquele software todo ano sem questionar. Mantém o mesmo número de funcionários no setor administrativo porque "sempre foi assim". Repete o orçamento do ano passado só ajustando pela inflação.

E no final do trimestre, olha o resultado e se pergunta: por que a margem não melhora?

A resposta está escondida em dezenas de despesas que viraram automáticas. Ninguém questiona mais se são necessárias — apenas repetem porque já estavam lá.

É aí que o Orçamento Base Zero (OBZ) entra. Não como teoria de MBA, mas como ferramenta cirúrgica para cortar gordura e realocar dinheiro onde realmente importa.

O que é Orçamento Base Zero (e por que ele dói)

Orçamento Base Zero é um método onde você ignora completamente o orçamento do ano anterior e reconstrói tudo do zero. Cada despesa precisa ser justificada — não porque existia antes, mas porque faz sentido agora.

Parece óbvio, mas a maioria das empresas faz o contrário: pega o orçamento de 2024, soma 5% a 8% de inflação, ajusta uma coisa aqui e outra ali, e pronto.

O problema? Essa abordagem perpetua desperdícios. Aquele contrato de R$ 2.400/mês que ninguém mais usa direito continua lá. A estrutura inchada do departamento que poderia ser 30% menor com automação nunca é revista.

No OBZ, nada é sagrado. Você começa com orçamento zero e adiciona apenas o que consegue defender com números.

💡 Dica: O OBZ não é para fazer todo ano — ele exige esforço e tempo. Use a cada 2 ou 3 anos, ou quando a empresa passar por mudança de rota (pivô, crise, nova fase de crescimento).

Como aplicar o Orçamento Base Zero em 5 passos

1. Liste todas as despesas sem exceção

Abra o extrato dos últimos 12 meses e classifique cada despesa por categoria: pessoal, tecnologia, marketing, infraestrutura, impostos, fornecedores, etc.

Não agrupe nada ainda. Você precisa ver linha por linha. Aquele débito automático de R$ 380/mês que ninguém lembra o que é? Anote.

2. Pergunte para cada item: "Se eu não tivesse isso, o que aconteceria?"

Essa é a pergunta-chave do OBZ. Não é "isso é importante?", mas "o que quebraria se eu cortasse?".

Se a resposta for "nada quebraria, mas seria inconveniente", você tem um candidato a corte ou renegociação.

3. Classifique cada despesa em 3 níveis

NívelDescriçãoExemplo
EssencialA operação para sem issoFolha de pagamento, aluguel, servidor
ImportanteImpacta resultados, mas não trava operaçãoCRM, assessoria contábil, plano de saúde
DesejávelAgrega conforto ou eficiência marginalAssinatura de revista, snacks no escritório

Seja honesto. A maioria das despesas vai cair no meio — e é aí que mora a decisão difícil.

⚠️ Atenção: Cuidado com o viés de confirmação. Se você criou um setor ou contratou alguém, vai tender a classificar aquilo como essencial. Peça opinião de quem não tem vínculo emocional com a despesa.

4. Reconstrua o orçamento de baixo para cima

Comece com as despesas essenciais. Depois adicione as importantes, uma por uma, justificando cada decisão. Pergunte:

  • Esse valor pode ser menor? (renegociação, troca de fornecedor)
  • Essa função pode ser terceirizada ou automatizada?
  • Esse custo fixo pode virar variável?

Monte a nova estrutura de orçamento como se você estivesse começando a empresa hoje, com o conhecimento que tem agora.

5. Compare o orçamento novo com o antigo e documente as decisões

Coloque lado a lado: quanto você gastava, quanto vai gastar, e por quê. Isso cria transparência e evita que decisões de corte virem clima ruim na equipe.

Se você cortou uma ferramenta, explique o motivo. Se manteve outra cara, mostre o retorno que ela traz.

📊 Dado: Empresas que aplicam OBZ identificam em média 15% a 25% de despesas que podem ser cortadas ou renegociadas sem impacto operacional, segundo nossa experiência com clientes de diferentes setores.

Exemplo prático: distribuidora de alimentos

Uma distribuidora de alimentos com 45 funcionários e faturamento anual de R$ 8 milhões com margem operacional de apenas 4,5% — metade do que deveria ser no setor.

O sócio sabe que há gordura, mas não consegue identificar onde. Ao aplicar o OBZ em uma sessão de 3 dias.

O que foi encontrado:

  • R$ 4.200/mês em licenças de software: sistema de gestão integrado que só 3 pessoas usavam de fato (o resto continuava no Excel). Migrado para um sistema mais simples e cortamos R$ 2.800/mês.

  • 2 analistas administrativos que basicamente reconciliavam notas fiscais manualmente — processo que foi automatizado com integração entre ERP e contador. Reposicionamento 1 deles para inside sales (área que precisava de reforço) e desligamento o outro por acordo.

  • R$ 1.800/mês em telefonia fixa corporativa que quase ninguém mais usava (todo mundo já estava no celular corporativo). Corte total.

  • Contrato de manutenção de impressoras de R$ 650/mês, sendo que a empresa imprimia cada vez menos. FOi trocado por locação sob demanda: R$ 180/mês em média.

Resultado:

ItemAntes (mês)Depois (mês)Economia anual
SoftwareR$ 4.200R$ 1.400R$ 33.600
Pessoal adminR$ 9.000 (2 pessoas)R$ 4.500 (1 pessoa)R$ 54.000
TelefoniaR$ 1.800R$ 0R$ 21.600
ImpressorasR$ 650R$ 180R$ 5.640
TOTALR$ 15.650R$ 6.080R$ 114.840

Corte de R$ 114 mil/ano sem parar nada. A margem operacional subiu para 5,9% em 6 meses — só com esse ajuste estrutural.

Os 3 erros mais comuns ao aplicar OBZ

1. Cortar músculo junto com gordura

OBZ não é programa de austeridade cega. Se você corta a verba de treinamento da equipe comercial para economizar R$ 800/mês, pode estar jogando fora R$ 15 mil/mês em vendas futuras.

2. Não envolver os gestores de cada área

Se você faz OBZ trancado na sala da diretoria, as decisões vão ser rasas e o time vai sabotar (conscientemente ou não) as mudanças. Cada gestor precisa defender ou justificar seus custos — é aí que aparece a verdade.

3. Aplicar OBZ todo ano

O método é poderoso, mas exige energia. Se virar rotina anual, vira teatro: todo mundo aprende a "defender" despesas com argumentos genéricos, e você perde o efeito. Use como cirurgia, não como band-aid.

Conclusão: orçamento não é planilha, é decisão

Orçamento Base Zero não é uma técnica contábil — é uma ferramenta de gestão que obriga você a tomar decisões que vinha adiando.

Toda empresa acumula gordura com o tempo. Contratos que fizeram sentido há 2 anos, estruturas que foram montadas para uma realidade que mudou, despesas que ninguém mais questiona.

O OBZ é o bisturi. Ele dói, incomoda, mas separa o que faz a empresa crescer do que só ocupa espaço no caixa.

Se você sente que está gastando demais mas não sabe onde cortar, comece pequeno: escolha um departamento ou uma categoria de despesa e aplique os 5 passos acima. Você vai se surpreender com o que encontra quando para de aceitar as coisas "como sempre foram".

Escrito por Paulo Raizi
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